
- Não adianta Miguel, não adianta… – sua voz ecoou no silencio, e ninguém parecia ter ouvido-a, nem mesmo Alan, para sua sorte, que subiu para buscá-la e a encontrou sentada e abraçada ao corrimão.
Olhou-a intensamente e estava prestes a puxá-la quando foi interrompido.
- Eu não posso, Alan. Não posso querido.
- Até quando vai acreditar nessa baboseira? Até quando vai deixar que ele te domine como se fosse peça de um jogo que ele comanda? Até quando vai ser imatura assim?
- Não é imaturidade, é esperança.
Ele não demonstrou nada. Nem mesmo nada.
- Eu vejo, Alan vejo nos seus olhos, nos seus gestos, em cada batimento, eu sinto, posso sentir. E sei que você também vê, apenas não quer admitir.
- Não podemos viver de ilusões para o resto de nossas vidas, Cristal.
- Pois saiba você que estou fazendo isso de livre e espontânea vontade. Essa decisão saltitava dentro de mim, mas eu resolvi encobri-la, resolvi deixa-la de lado, porém, é o que eu quero, de verdade. Me deixe por favor. Me deixe fazer uma escolha pelo menos uma vez, Alan. Você me conhece muito bem, e sei que não é o que gostaria de ouvir, mas se eu tiver que me decepcionar para aprender, deixe que eu me decepcione. Deixe a vida me ensinar. Minha liberdade é restrita, já não me resta muito. Por favor, e acima de tudo obrigada.
Uma lágrima escorreu de seu rosto.
Alan afrouxou a gravata e a arrancou com voracidade. Margarhete e Simas estavam do lado de fora apenas esperando. Mas ninguém saiu, nem Cristal, nem Alan. E a chuva desatou a cair revoltosamente chacoalhando as árvores e dedilhando os telhados da vizinhança. Ninguém mais iria a lugar algum. Estavam todos do lado de dentro cada qual em um lugar com um sentimento. Margarhete frustrada por ver sua família desabando lentamente e cada vez mais; Simas sem conseguir esconder um leve sorriso que se erguia no rosto com a decisão da filha; Alan jogado no sofá do sóton dividindo a perda definitiva com uma garrafa de vidro; Cristal, ainda abraçada ao corrimão, tentando livrar a mente de tudo que corria dentro dela; e Miguel, no escritório, debruçado sobre a mesa apenas sendo: confuso, solitário e frio, apenas sendo ele mesmo.
- Você não vem?
- Não posso.
Ela baixou a cabeça e retorceu os lábios. Já sabia que a resposta para sua pergunta não seria muito diferente.
- Você prometeu.
Ele enrijeceu e serrou os punhos. Não demonstrou nenhuma resposta além.
- Cristal? - ecoou a voz de Alan do fim da escada.
- Já estou indo - ela encarou-o e atestou-o desdenhoso - querido - provocou-o.
Ele em uma tentativa falha de lhe intimidar, voltou a ignora-la superficialmente. Sentiu um peso cair dentro de si.
Ela saiu pela porta do escritório segurando o vestido, junto ao corpo, que se arrastava pelo chão. Olhou para trás pela última vez e descobriu seu olhar fixo no dela que logo se acanhou e se escondeu. Desceu. Alan a esperava na ponta com os braços estendidos e boca meio-aberta de surpresa. Sua beleza era nitidamente irradiante.
- Papai - virou-se para o lado segurando as mãos de Alan - não seja grosseiro demais esta noite.
Ele olhou-os furiosamente e foi contido por sua esposa que agarrou seu braço e levou-o para o lado de fora.
- Tem certeza de que está tudo bem? - indagou preocupado com a própria segurança.
- Não se preocupe, ele sabe porque estou fazendo isso.
Miguel desceu as escadas no momento em que eles estavam saindo, passou por ela sem nem ao menos lhe olhar os pés e subiu novamente com um copo de água. Grunhiu ao pisar no último degrau. O copo se desfez no chão causando notável estardalhaço.
Cristal sem pensar duas vezes subiu as escadas correndo, com medo de que algo lhe houvesse acontecido. Chegou e conferiu que nada de mais havia acontecido além de uma raiva espalhada pelo chão, em formato de cacos.
- Você jogou-o no chão! - sussurrou.
Os cacos se espalharam de tal forma, que era possível perceber que eles haviam sido jogados ao chão com força.
Ele segurou seu braço apertando-o a ponto de deixar uma marca avermelhada e mais tardar roxeada.
- Não vá.
- E o que você vai fazer para impedir?
Ele se manteve em silêncio por alguns segundos. Ela estava quase desistindo.
- Ele pode fazer uma loucura - ela pareceu não entender - seu pai - completou.
- Alan sabe se defender - virou e tentou se soltar para descer.
- Não estou preocupado com ele, você sabe disso - ele apertou ainda mais.
- Me solte, está me machucando!
- Cristal? Precisa de ajuda?
Miguel afrouxou a mão e liberou seu braço. Ela se virou e desceu dois degraus.
- Por mim.
Ele disse a única coisa que a faria parar. Eu te amo. Não foi exatamente o que ele disse, mas foi o que quis dizer, pensou.
- Onde foi parar tudo aquilo que julgava sentir? Se me garantir que ainda esta presente em você, eu não irei, muito menos partirei.
- Me dê uma semana.
Miguel se virou voltando para o escritório, parecia incomodado. Mas foi frio como sempre. Cristal avaliou sua frieza sentindo aquela impressão de previsibilidade. Ele não lhe ama garota, acorde, se contradisse. Ama sim, ama sim…

